Lígia Guerra

Lígia Guerra
Por que carrego doçura na alma e asas nos pés?
Porque sinto a vida além do óbvio.
Porque enxergo sol em dias de chuva.
Porque amo até mesmo o desamor.
Porque acolho cada gesto com os braços do coração.
Porque perfumo o caminho das estrelas.
Porque componho alegria na poesia da tristeza.
Porque desejo colorir a vida com olhos de fé!

- Lígia Guerra -

quinta-feira, 23 de abril de 2015

SORORIDADE: DESCUBRA A FORÇA QUE PULSA EM VOCÊ!!!




Desde pequenas ‘aprendemos’ que os homens são racionais e as mulheres emocionais. Só que ao invés de nos beneficiarmos com a nossa inteligência emocional, muitas vezes somos taxadas de descontroladas, especialmente quando não acatamos as opiniões masculinas. Somos vistas como desequilibradas quando nos rebelamos por ganhar menos, termos que cuidar sozinhas dos afazeres domésticos, não termos o direito de caminhar na rua ou de utilizarmos o transporte público em paz, sem sermos molestadas verbal ou fisicamente. 

O curioso é que apesar de sermos taxadas de loucas, quatro em cada dez (38,6%) mulheres assassinadas no mundo, o foram por seus maridos ou namorados RACIONAIS e EQUILIBRADOS!!! Quem revelou esse estudo foi a Organização Mundial da Saúde (OMS), sobre violência contra pessoas do sexo feminino. Por outro lado, esposas e namoradas são responsáveis por 6,3% dos assassinatos de homens. A taxa de homicídios de mulheres cometidos por seus parceiros varia de acordo com o país. A taxa mais elevada é observada em países asiáticos, onde quase 60% dos assassinatos a mulheres são cometidos pelos maridos ou namorados. A região com a menor porcentagem é da mediterrânea (14,4%). 
Diante desses números, a organização afirmou que o quadro representa um problema de saúde global com proporções epidêmicas. 

Acreditar que somos malucas é uma forma conveniente de manipulação masculina, o “Gaslight”. O termo foi inspirado a partir do filme de 1944 da MGM, estrelado pela talentosa Ingrid Bergman. Nele, o marido de Bergman no filme, interpretado por Charles Boyer, quer tomar sua fortuna. Ele se dá conta de que pode conseguir isso provando a sua incapacidade mental. Enlouquecendo-a! Então, ele arma um plano, prepara as lâmpadas de gás (no inglês, "gaslights", vindo daí o nome do filme) de sua casa para ligarem e desligarem alternadamente. O gaslight é muito sutil, proferido com comentários velados de ‘acolhimento ou de piada’: “Você é tão sensível”. “Está de TPM”? “Não exagere, eu não lavei a louça porque trabalhei o dia todo, não vai surtar não é amor?’. ‘Você não tem senso de humor… só porque brinquei que a sua amiga é uma gostosa está zangada?” 

Esses comentários podem parecer inócuos, mas traduzem um julgamento sobre como a mulher deve se sentir. Uma forma velada de violência emocional, de deboche frente ao sentimento feminino. Estes dias recebi um e-mail com a seguinte ‘piada’: Não tente entender outras mulheres, elas não se entendem, se odeiam!!!”. Confesso que doeu ler aquilo. Sim, muitas vezes é verdade. Ainda estamos aprendendo a nos libertar desses rótulos que recebemos. Carregamos sim, muito machismo dentro de nós. Não é fácil admitir, mas é preciso. Muito além das causas óbvias, pelas quais lutamos como feministas, ainda nos deparamos com as sequelas do patriarcado. Cicatrizes demoram para fechar e sentimentos precisam ser reaprendidos. Eu, pelo menos, sou aluna diária! 

Óbvio que a ideia não é conquistar respeito estigmatizando os homens como perversos. Longe disso! Não pretendemos nos libertar dos cárceres do machismo, colocando outros prisioneiros no lugar. Queremos sim, ampliar o nosso nível de consciência e valorizar os homens certos. Eu convivo com homens incríveis que não apenas compreendem todo esse processo, como também o fortificam e aprendem sobre os seus novos papéis e responsabilidades . O que desejamos é desfrutar da mesma liberdade de ir e vir. Adquirir o mesmo reconhecimento social. Ter equidade salarial. Sermos reprodutoras de vidas e produtoras de novas possibilidades. 

A diferença é que os homens tiveram uma vida inteira para construir seus laços de fraternidade, enquanto nós estamos em processo de desenvolvimento. O primeiro ato de amor que temos a obrigação de desenvolver é em relação a nós mesmas. Sim, a melhor maneira de fazer com que uma mulher odeie a outra, é alimentando ódio contra si mesma. As formas são variadas e enganosas. Ainda esses dias li um texto que dizia o seguinte: “Sempre fui mais inteligente do que as outras garotas da minha turma. As outras eram bonitinhas, mas quem levava as medalhas para casa era eu.” Percebe a armadilha? De um jeito ou de outro sempre temos que ser MAIS. Retroalimentamos os sentimentos ruins e ainda nos sentimos justiceiras! 

Esse ciclo também nos escraviza através de fotos manipuladas em revistas que vendem padrões de beleza inatingíveis para a maioria das mulheres, mas que reforçam sentimentos de inferioridade. Padrões mentirosos de felicidade material, conjugal e financeira também são reproduzidos em redes sociais e imitados, feito ‘regras de felicidade’. Fofocas, auto abandono, corrupção emocional….sentimentos que sabotam e entorpecem nossas visões de mundo e sobre nós mesmas. 

O problema fica evidente quando compartilhamos da intimidade de mulheres que se aproximam desses padrões que acreditamos ser os ideais. Projetamos nelas os piores sentimentos. No entanto, o que está sendo projetado na vítima são as emoções negativas que nutrimos em relação a nós mesmas. 

É nesse momento que a sororidade pode virar a mesa e inverter esse jogo sádico da comparação. A sororidade é uma sábia professora que tira a força da opressão e fortalece a compreensão, amplia os laços e valoriza a singularidade. No lugar do incômodo diante do diferente, ela coloca o aprendizado. No lugar da inveja, a admiração. No lugar da crítica, a compreensão. No lugar da cegueira, a luz. No lugar da fofoca, o diálogo. No lugar da misoginia, a educação. No lugar dos sentimentos de inferioridade, a possibilidade da autodescoberta. 

Mulheres que abraçam a sororidade não querem ser santas. Desejam apenas ser elas mesmas e fortificar o direito das outras mulheres fazerem o mesmo. Simples? Nem tanto. Libertador? Certamente. Muito obrigada por me acompanhar nesse texto, sóror! 


- Lígia Guerra -


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